CAMINHO

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FÉ - ESPERANÇA - PAZ - AMOR

quinta-feira, 3 de março de 2011

TODO MUNDO - QUALQUER UM - ALGUÉM - NINGUÉM

TODO MUNDO - QUALQUER UM - ALGUÉM - NINGUÉM

O Encontro de Coordenadores dos Vicariatos Suburbano e Leopoldina terminou com uma divertida dinâmica que fez sucesso. TODO MUNDO pediu que ela fosse divulgada no nosso Blog para que QUALQUER UM pudesse usá-la. ALGUÉM, então, enviou a dinâmica para nós. Aproveite-a em sua comunidade... NINGUÉM vai ficar parado!


Sugestão de dinâmica. Dividir o grupo em quatro. Uma parte será "todo mundo", outra "alguém", "ninguém" e outra "qualquer um'". Em seus próprios lugares eles participarão levantando ou gesticulando sempre que o “nome” for citado. O dinamizador lê pausadamente o texto. Concluir refletindo sobre o Compromisso.


TODO MUNDO, ALGUÉM, QUALQUER UM E NINGUÉM

Essa é a história de quatro pessoas que pertencem a mesma paróquia: "Todo mundo", "Alguém", "Qualquer um" e "Ninguém". Nessa Paróquia um grande trabalho devia ser feito e "Todo Mundo" tinha certeza de que "Alguém" o faria.

Até o Padre na Reunião do Conselho considerou que "Qualquer Um" poderia tê-lo feito, mas "Ninguém" o fez.

Como às vezes acontece em algumas Comunidades.

"Alguém" se zangou porque era um trabalho de "Todo Mundo".

"Todo Mundo" pensou que "Qualquer Um" poderia fazê-lo, mas "Ninguém" imaginou que "Todo Mundo" deixasse de fazê-lo.

Ao final, "Todo Mundo" culpou "Alguém" quando "Ninguém" fez o que "Qualquer Um" poderia ter feito..."

  • De quem é a culpa afinal?...
  • Quem tem que assumir o trabalho? ...
(Reproduzido do BLOG "Iniciação Cristã" da Arquidiocese do Rio de Janeiro) 

domingo, 16 de janeiro de 2011

VIVA A VIDA

VIVA A VIDA

A vida é uma oportunidade, aproveite-a.
A vida é beleza, admire-a.
A vida é felicidade, deguste-a.
A vida é um sonho, torne-o realidade.
A vida é um desafio, enfrente-o.
A vida é um dever, cumpra-o.
A vida é um jogo, jogue-o.
A vida é preciosa, cuide dela.
A vida é uma riqueza, conserve-a.
A vida é um mistério, descubra-o.
A vida é uma promessa, cumpra-a.
A vida é uma tristeza, supere-a.
A vida é um hino, cante-o.
A vida é uma luta, aceite-a.
A vida é uma aventura, arrisque-a.
A vida é felicidade, mereça-a.
A vida é a vida, defende-a.
 (Conselhos de Madre Teresa de Calcutá) - transcrito do livro "Vinde à parte e descansai um pouco" - Carmita Overbeck - Ed. Paulinas.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A ARTE DE CONVERSAR

A arte de conversar

O título acima pode surpreender. Pois, conversar exigirá uma certa arte? Estamos conversando a toda hora, a respeito de tudo, e alguém pretenderá haver nisto arte?!
Não se confunda conversa com falatório.
Outrora, as relações sociais chegaram a atingir um alto grau de requinte, de finura, e - por que não? - também de nobreza. Aquilo que constitui um dos atributos mais próprios do ser racional, que é a interlocução inteligível entre indivíduos, adquiriu as características de uma arte, no seu sentido mais elevado.

Como é sabido, o período do Ancien Régime, na França sobretudo, mas também em várias outras nações da Europa, alcançou este alto patamar da interlocução humana, transformando‑o em arte consumada. Foi no chamado século das luzes que essa arte expandiu-se por inteiro, atingindo então seu apogeu com o aparecimento dos salões de conversa, que constituíram um dos fenômenos mais fascinantes da cultura europeia. Neles as pessoas se reuniam tão ‑só para conversar, com dia e hora marcadas.
Troca de opiniões repetitivas não é conversa
Claro está que não se contentavam com uma simples troca de ideias ou, menos ainda, com uma banal permuta de palavras ou de opiniões repetitivas, tão a gosto de alguns atualmente. Os salões de conversa exigiam de seus frequentadores, além de elevada cultura geral, uma forma de apresentação do discurso que deixava transparecer justamente todo o seu charme. Conversar era apresentar um assunto de modo elegante, atraente, inédito às vezes, além de profundamente ligado à realidade, podendo até mesmo ter sua nota de inesperado.

Não raro, lamentamo-nos em ter acabado o tempo no qual as pessoas tinham a superioridade de se reunir para conversar sobre temas elevados. Hoje em dia, malgrado a boa vontade existente, as condições concretas da vida tornam este tipo de arte quase impraticável.
Justamente, a tal propósito, tomei conhecimento de uma obra -Les Salons européens. ‑ Les beaux moments d'une culture féminine disparue- (1), que traça a história dos salões de conversa europeus, de suas pré‑-origens até seu desaparecimento no século atual, após um período de agonia.
A conversa como favorecedora da cultura.
Transcrevo, em tradução um pouco livre, trechos do capítulo final, intitulado "Último adeus a um paraíso perdido":
"A vida de salão, enquanto fenômeno cultural único, acabou no conjunto do espaço europeu.
Como encontrar, por um golpe de varinha mágica, o tempo e o local para fundar um laboratório de conversa altamente espirituosa? A tranquilidade necessária para usufruir isto encontra-se estrangulada pela rapidez da vida moderna. Manter um local, com frequentadores habituais, não corresponde mais às tendências do homem de hoje, o qual, na maior parte das vezes, atribui mais importância ao esporte e às viagens do que a dedicar-se à arte da conversa.
A conversa favorecedora da cultura, que se desenrola sem limites de tempo e sem obrigação de se chegar a um termo de entendimento, cedeu o lugar à formação da opinião pela mídia. A conversa recreativa deslocouse, cada vez mais nitidamente, rumo a um estilo pergunta e resposta.
A comunicação escrita triunfou sobre as relações por meio da conversa. As discussões culturais são levadas a cabo, na maioria das vezes, pelas redações de jornais ou das emissoras de televisão, muito mais do que nos lares.
Acrescente-se a isso a tendência à especialização, golpe mortal para o homem comum que leva aqueles que estão fartos da mídia rumo a associações literárias e a sessões de leituras, que revestem um caráter quase que de conspiração.
O mundanismo, em vez da sociabilidade, é que constitui presentemente o veículo da informação. A conversa de tônus espirituoso cede o passo ante o jargão de determinado meio.
A televisão também se apresenta, hoje em dia, como prática literária. Entretanto, tal ação permanece limitada ao entrevistador e a seus convidados; o telespectador permite passivamente que lhe sirvam a conversação até em sua própria sala de visita".
Tais observações são suficientemente cogentes e explícitas, para dispensar outros comentários. Não obstante, aproveito a ocasião para levantar uma questão. Tem-se falado, e com muito acerto, a respeito de certos malefícios causados pela TV, notadamente no campo da deformação moral.
Aqui aparece mais um dano, do qual se tem tratado insuficientemente: o lento "homicídio" da formação cultural individual, quase, diria, personalizada, pela mídia de massas. Ainda mais do que a produção de uma cultura enlatada, como tem sido apelidada por certos críticos, é a incapacidade de elaborar cultura que nos tem sido servida, quase impingida, a pretexto de atualidade.
Será que o confisco do tempo necessário à conversa pode ser considerado um benefício?
- Claro está que na conversa devemos sempre manter um trato respeitoso com nosso interlocutor, ainda que tenhamos objeções a debater com ele.
Muito acertadamente pondera neste sentido um escritor católico (2):
"O trato respeitoso deve estar presente na interlocução, inclusive, quando as pessoas discutem por divergências de opinião. Assim como se admira na esgrima beleza dos movimentos, a categoria e destreza dos contendores, assim se pode compreender essa verdadeira esgrima do espírito que é a discussão bem conduzida, na qual uma das partes opõe argumentos de peso contra a outra, e esta responde à altura. Afinal, aquele que sustenta o conceito legítimo, tem ganho de causa.
Sem dúvida, é interessante observar o confronto entre dois indivíduos com mentalidade, inteligência, feitio de alma, modos de ser diferentes, ouvir argumento contra argumento e notar o triunfo de um deles.
Faz parte da arte da conversa, assim como este outro ponto muito importante que é o compreender a psicologia daquele com quem tratamos, a fim de se conhecer sua personalidade e preparar seu espírito para aceitar o que lhe dizemos".
Pratiquemos a arte da conversa e procuremos expandi-la o mais possível. Além de uma obra de apostolado de primeira ordem, também ajudaremos a tornar nossos relacionamentos mais culturais.

(Artigo: A arte de conversar. Autor: Gaudium Press - 2010/11/16 - http://www.gaudiumpress.org/ )

APRENDENDO COM FREI IGNÁCIO, FUNDADOR DAS OFICINAS DE ORAÇÃO E VIDA

AMAR É DIALOGAR 

O diálogo não é um debate de ideias, em que se combate com o fogo cruzado de critérios, atrás dos quais ocultam-se e se defendem as atitudes e interesses pessoais.
Diálogo não é polêmica, nem controvérsia, nem confrontação dialética de concepções ou mentalidades diferentes. Também não se trata de vários monólogos entrecortados pelo jogo das luzes verdes e vermelhas, como acontece com os semáforos da rua.

Trata-se de buscar a verdade entre duas pessoas, ou em um grupo.
Todo diálogo se processa sobre diferenças. É preciso que você seja você mesmo, e eu seja eu mesmo, cada um com a total identidade consigo mesmo. O diálogo exige, em primeiro lugar, uma grande sinceridade. 
Sempre que se busca a verdade ou se quer superar um conflito interpessoal por meio do diálogo, a primeira e elementar atitude é a humildade.
Precisamos de humildade para esquecer velhas histórias, desavenças passadas, o que aconteceu em nosso diálogo anterior. Precisamos da atitude generosa de perdoar. São as situações emocionais que bloqueiam a comunicação entre os irmãos. As distâncias dos corações se cristalizam em distâncias das mentes. Nesses casos, as pessoas se inibem e se refugiam nas regiões mais longínquas de si mesmas.
É preciso aceitar o outro como é, sem preconceitos, sem apriorismos. Tenho que pensar que ele tem tanto direito quanto eu de ser ele mesmo, com suas peculiaridade e deficiências. Na hora de escutá-lo, tenho que esquecer os preconceitos contra ele, olhá-lo com simpatia e compreender a globalidade de sua personalidade, sua história passada e sua situação presente. 
A comunidade deve crer e amar o diálogo porque ele
solta todos os nós,
dissipa todas as suspeitas,
abre todas as portas,
soluciona todos os conflitos, 
amadurece a pessoa e a comunidade,
é o vínculo da unidade e da paz,
é a alma e a "mãe" da Fraternidade.
("Suba Comigo" - Frei Ignácio Larrañaga - Ed. Paulinas) 

sábado, 25 de dezembro de 2010

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

Cardeal Dom Eugenio de Araújo Sales - Arcebispo Emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro - Jornal "Testemunho de Fé" - Ed. nº 515 - 19 a 25/12/2010


Já tive a oportunidade de comentar em outras ocasiões o Catecismo da Igreja Católica. No entanto, sua relevância para a missão da Igreja e o bem que faz aos fiéis e a outras pessoas de boa vontade justificam uma nova abordagem.
 
O Catecismo da Igreja Católica é um instrumento precioso “que ajuda a aprofundar o conhecimento da fé. Representa um válido e seguro instrumento para os presbíteros na sua formação permanente e na pregação; para os catequistas, na sua preparação remota e próxima para o serviço da Palavra; para as famílias, no seu caminho de crescimento rumo ao pleno exercício das potencialidades ínsitas no sacramento do matrimônio; para os teólogos, que poderão encontrar uma autorizada referência doutrinal para a sua incansável investigação. Apresenta-se, enfim, como precioso subsídio para a atualização sistemática daqueles que trabalham nos múltiplos campos da ação eclesial (Discurso do Papa João Paulo II, 8 de setembro de 1997).
 
Mesmo os não pertencentes à Igreja têm aí o autêntico ensinamento de Cristo. Isso facilita o discernimento entre a doutrina sã e as elucubrações de indivíduos que aco-bertam suas interpretações pessoais e errôneas sob o nome de “católicos”. O conteú-do do Catecismo é a aplicação da Revelação divina à vida de cada um. Ele nasce da Palavra de Deus contida na Sagrada Escritura e na Tradição e, estudado, ilumina nos-sos passos.
 
Foi o resultado de anos de atividade em que, sob a presidência do então cardeal Josef Ratzinger, na época Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, uma comissão de teólogos das várias partes do mundo trabalhou intensamente. O texto foi submetido à apreciação do episcopado da Igreja inteira, recebendo então poucos retoques, sendo aprovado em junho de 1992 pelo Papa João Paulo II.
 
A obra se dispõe harmonicamente em quatro partes: 1) A Fé professada (Credo); 2) A fé celebrada (a Liturgia); 3) A Fé vivenciada (a Moral); 4) A Fé feita oração e o Pai-Nosso. A leitura do texto é fácil e agradável. Está longe de ser uma cartilha inovadora de pecados.
 
Somos bombardeados, em nossa época, por uma variedade de conceitos, propostas e ideias as mais diversas e contraditórias. Em meio a esse vozerio, onde está o certo? Como diferenciá-lo do errado? Como agir? Para que houvesse uma solução a cada problema e em todas as circunstâncias, veio Cristo nos ensinar. Sua doutrina está consignada nos Livros Sagrados e na Tradição, ambos confiados ao Magistério vivo.
 
Como a verdade é eterna, essas diretrizes são perenes. Ocorre que, ao passar dos anos, surgem novas realidades, que pedem uma orientação de acordo com o doutrinamento do Senhor Jesus. Para isso, a Igreja acompanha o gênero humano em suas interrogações e lhe proporciona a informação solicitada. E o faz com a garantia que lhe deu o Mestre: “Quem vos ouve, a mim ouve” (Lc 10,16).
 
Acresce a necessidade de ter, com presteza, o atendimento às nossas inquietações e perguntas.
 
Para tudo isso têm sido, desde o início da Igreja, preparados escritos que solucionem essas carências. No início da Igreja houve obras com essa finalidade. A Didaqué, no século I, é um exemplo. Tivemos um célebre Catecismo, que atravessou séculos e nele aprendemos em nossa infância a Doutrina de Jesus. Foi o Catecismo chamado “do Concílio de Trento” ou “de São Pio V”. Hoje, eis que temos o Catecismo da Igreja Católica, continuação do anterior, atualizado em suas respostas aos problemas novos à luz do Vaticano II. No entanto, nada de essencial é alterado.
 
O homem moderno, enfrentando as mudanças frequentes, tem nesse livro precioso o caminho certo. Para encontrá-lo, basta buscá-lo nessa obra. Aí está, de maneira sistemática, compreensível e integral.
 
O Catecismo nasce da Bíblia e da Tradição. Ao mesmo tempo, leva a elas seu leitor. Todo o texto torna mais claros e ordenados os assuntos. Há um índice remissivo que facilita a procura de temas e questões.
 
Sem dúvida, é importante ter em casa, na mesa de trabalho, a Bíblia, que contém a Palavra de Deus. Igualmente o Catecismo da Igreja Católica. Urge, no entanto, estudar mais o conteúdo desse livro. Obviamente, antes de tudo, está a leitura diária e piedosa da Sagrada Escritura. O Catecismo da Igreja Católica nos é proposto não tanto para termos a posse de um exemplar, mas com o objetivo de nos fazer aprender e praticar seus ensinamentos, considerando as diretrizes que nos dá.
 
Cada ser humano tem necessidade de adquirir conhecimentos, inclusive no campo religioso. O nível das lições é diverso. Como crianças, temos uma compreensão muito elementar. Ao passar dos anos, as exigências de maior conhecimento de nossa Fé se avolumam. São outras interrogações, que exigem respostas convincentes. Em todos há algo de comum: a dimensão eterna da vida humana. O destino futuro, após a morte, dependerá de nossos atos hoje e a eles condicionados. Isso nos mostra nitidamente a importância do estudo do Catecismo, que nos proporciona a orientação de cada ato de nossa existência. Vê-se assim, claramente, como essa obra está intimamente relacionada com nosso presente e o futuro.
 
Diz-se muitas vezes que o mundo se distanciou de Deus. A verdade é que, em nossos dias, cresce a fome do Sagrado. Vivamos, pois, segundo a Doutrina de Jesus, e tenhamos no Catecismo um tesouro para nossas vidas.

sábado, 18 de dezembro de 2010

RENOVADA EVANGELIZAÇÃO

Parte da Homilia do Papa Bento XVI, em 28 de junho de 2010, em que ele aborda a Evangelização e anuncia “criar um novo Organismo, sob a forma de "Pontifício Conselho", com a principal tarefa de promover uma renovada evangelização”.


O Servo de Deus Giovanni Battista Montini, quando foi eleito Sucessor de Pedro, em plena fase de realização do Concílio Vaticano II, desejou assumir o nome do Apóstolo das nações. No interior do seu programa de realização do Concílio, em 1974 Paulo vi convocou a Assembleia do Sínodo dos Bispos sobre o tema da evangelização do mundo contemporâneo, e cerca de um ano mais tarde, publicou a Exortação Apostólica Evangelii nuntiandi, que começa com estas palavras: "O compromisso de anunciar o Evangelho aos homens do nosso tempo, animados pela esperança mas, ao mesmo tempo, muitas vezes atormentados pelo medo e pela angústia, é sem dúvida alguma um serviço presta-do à comunidade cristã, mas também a toda a humanidade" (n. 1). Impressiona a atualidade destas expressões. Sentem-se nelas toda a particular sensibilidade missionária de Paulo VI e, através da sua voz, o grande anseio conciliar da evangelização do mundo contemporâneo, anseio que culmina no Decreto Ad gentes, mas que permeia todos os documentos do Concílio Vaticano II e que, antes ainda, animava os pensamentos e o trabalho dos Padres conciliares, reunidos para representar de modo jamais tão tangível, a difusão mundial alcançada pela Igreja.

Não são necessárias palavras para explicar como o Venerável João PauloII, no seu longo pontificado, desenvolveu esta projecção missionária que – é preciso recordá-lo – sempre corresponde à própria natureza da Igreja que, como São Paulo, pode e deve repetir sempre: "Porque se anuncio o Evangelho, não tenho de que me gloriar, pois que me é imposta esta obrigação: ai de mim, se eu não evangelizar!" (1 Cor 9, 16). O Papa João Paulo II representou "ao vivo" a natureza missionária da Igreja, com as viagens apostólicas e com a insistência do seu Magistério sobre a urgência de uma "nova evangelização: "nova" não nos seus conteúdos, mas no seu impulso interior, aberto à graça do Espírito Santo, que constitui a força da lei nova do Evangelho e que sempre renova a Igreja; "nova" na busca de modalidades que correspondam à força do Espírito Santo e sejam adaptadas aos tempos e às situações; e "nova", porque necessária também nos países que já receberam o anúncio do Evangelho. É evidente para todos que o meu Predecessor deu um impulso extraordinário para a missão da Igreja, não apenas – repito – pelas distâncias por ele percorridas, mas sobretudo pelo genuíno espírito missionário que o animava e que nos deixou em herança no alvorecer do terceiro milénio.

Recolhendo esta herança, pude afirmar, no início do meu ministério petrino, que a Igreja é jovem e está aberta ao futuro. E repito-o também hoje, ao lado do sepulcro de São Paulo: a Igreja constitui no mundo uma imensa força renovadora, decerto não pelas suas forças, mas pela força do Evangelho, em que sopra o Espírito Santo de Deus, o Deus criador e redentor do mundo. Os desafios da época contemporânea estão certamente acima das capacidades humanas: trata-se dos desafios históricos e sociais e, com maior razão, dos espirituais. Às vezes parece que nós, Pastores da Igreja, revivemos a experiência dos Apóstolos, quando milhares de pessoas necessitadas seguiam Cristo, e Ele perguntava: o que podemos fazer por toda esta multidão? Então, eles experimentavam a própria impotência. Mas precisamente Jesus demonstrou-lhes que com a fé em Deus nada é impossível, e que poucos pães e peixes, abençoados e compartilhados, podiam dar de comer a todos. Mas não havia – e não há – somente a fome de um alimento material: existe uma fome mais profunda, que apenas Deus pode saciar. Também o homem do terceiro milénio aspira a uma vida autêntica e plena, tem necessidade da verdade, da profunda liberdade, do amor gratuito. Até nos desertos do mundo secularizado, a alma do homem tem sede de Deus, do Deus vivo. Por isso João Paulo II escrevia: "A missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, ainda está muito longe do seu pleno cumprimento", e acrescentava: "Uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão ainda está no início, e que devemos empenhar-nos com todas as forças ao seu serviço" (Encíclica Redemptoris missio, 1). Existem regiões do mundo que ainda esperam uma primeira evangelização; outras que já a receberam, mas que têm necessidade de um trabalho mais aprofundado; outras ainda, em que o Evangelho desde há muito tempo lançou raízes, dando lugar a uma verdadeira tradição cristã, mas onde nos últimos séculos – com dinâmicas complexas – o processo de secularização produziu uma grave crise do sentido da fé cristã e da pertença à Igreja.

Nesta perspectiva, decidi criar um novo Organismo, sob a forma de "Pontifício Conselho", com a principal tarefa de promover uma renovada evangelização nos países onde já ressoou o primeiro anúncio da fé e estão presentes Igrejas de antiga fundação, mas que estão a passar por uma progressiva secularização da sociedade e a viver uma espécie de "eclipse do sentido de Deus", que constituem um desafio a encontrar meios adequados para voltar a propor a verdade perene do Evangelho de Cristo.
Caros irmãos e irmãs, o desafio da nova evangelização interpela a Igreja universal, exortando-nos a continuar com empenhamento na busca da plena unidade entre os cristãos. Um eloquente sinal de esperança neste sentido é o hábito das visitas recíprocas entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, por ocasião das festas dos respectivos Santos Padroeiros. Por isso, hoje acolhemos com renovada alegria e reconhecimento a Delegação enviada pelo Patriarca Bartolomeu I, a quem dirigimos a mais cordial saudação. A intercessão dos Santos Pedro e Paulo obtenha para a Igreja inteira fé fervorosa e coragem apostólica, para anunciar ao mundo a verdade de que todos nós temos necessidade, a verdade que é Deus, origem e fim do universo e da história, Pai misericordioso e fiel, esperança de vida eterna. Amém!

As Oficinas de Oração e Vida, com os ensinamentos do fundador Frei Ignácio Larrañaga, é um apostolado que se propõe a vivenciar e anunciar a NOVA EVANGELIZAÇÃO. À afirmação de São Gregório Magno: "Os fiéis nos deixam e nos abandonam e nós permanecemos em silêncio", as Oficinas de Oração e Vida identificam "o sinal que o Papa nos deu para não permanecermos em silêncio", com esse Conselho Pontifício para a promoção da Nova Evangelização.
Participe, inscreva-se nas Oficinas de Oração e Vida. 
 
http://www.tovpil.org/

VOCAÇÃO DE TODOS À SANTIDADE

Capitulo V - A Vocação de Todos à santidade na Igreja
(Constituição Dogmática Lumen Gentium)


Proêmio

39. A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefectivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito ao único Santo» (120), amou a Igreja como esposa, entregou-Se por ela, para a santificar (cfr. Ef. 5, 25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de. Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: «esta é a vontade de Deus, a vossa santificação» (1 Tess. 4,3; cfr. Ef. 1,4). Esta santidade da Igreja incessantemente se manifesta, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; aparece dum modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçada sob a moção do Espírito Santo por muitos cristãos, quer privadamente quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade.

A vocação universal à santidade

40. Jesus, mestre e modelo divino de toda a perfeição, pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos seus discípulos, de qualquer condição: «sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito» (Mt. 5,48) (121). A todos enviou o Espírito Santo, que os move interiormente a amarem a Deus com todo o cora-ção, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cfr. Mc. 12,30) e a amarem-se uns aos outros como Cristo os amou (cfr. Jo. 13,34; 15,12). Os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta san-tidade que receberam. O Apóstolo admoesta-os a que vivam acorro convém a santos» (Ef. 5,3), acorro eleitos e amados de Deus, se revistam de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, mansidão e paciência» (Col. 3,12) e alcancem os frutos do Espírito para a santificação (cfr. Gl 5,22; Rom. 6,22). E porque todos cometemos faltas em muitas ocasiões (Tg. 3,2), precisamos constantemente. da misericórdia de Deus e todos os dias devemos orar: «perdoai-nos as nossas ofensas» (Mt. 6,12) (122). É, pois, claro a todos, que os cristãos de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade (123). Na própria sociedade terrena, esta santidade promove um modo de vida mais humano. Para alcançar esta perfeição, empreguem os fiéis as forças recebidas segundo a medida em que as dá Cristo, a fim de que, seguindo as Suas pisadas e conformados à Sua imagem, obedecendo em tudo à vontade de Deus, se consagrem com toda a alma à glória do Senhor e ao serviço do próximo. Assim crescerá em frutos abundantes a santidade do Povo de Deus, como patentemente se manifesta na história da Igreja, com a vida de tantos santos.

Exercício multiforme da santidade única

41. Nos vários gêneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimentos pelo caminho da fé viva, que esti-mula a esperança e que atua pela caridade.

Em primeiro lugar, os pastores do rebanho de Cristo, à semelhança do sumo e eterno sacerdote, pastor e bispo das nossas almas, desempenhem o próprio ministério santamente e com alegria, com humildade e fortaleza; assim cumprido, também para eles será o seu ministério um sublime meio de santificação. Escolhidos para a plenitude do sacerdócio, receberam a graça sacramental para que, orando, sacrificando e pregando, com toda a espécie de cuidados e serviços episcopais, realizem a tarefa perfeita da caridade pastoral (124), sem hesitarem em oferecer a vida pelas ovelhas e, feitos modelos do rebanho (cfr. 1 Ped. 5,3), suscitem na Igreja, também com o seu exemplo, uma santidade cada vez maior.

Os presbíteros, à semelhança da ordem dos Bispos, de que são a coroa espiritual (125), já que participam das suas funções por graça de Cristo, eterno e único mediador, cresçam no amor de Deus e do próximo com o exercício do seu dever quotidiano; guardem o vínculo da unidade sacerdotal, abundem em toda a espécie de bens espirituais e dêem a todos vivo testemunho de Deus (126), tornando-se êmulos daqueles sacerdotes que no decorrer dos séculos, em serviço muitas vezes humilde e escondido, nos deixaram mag-nífico exemplo de santidade. O seu louvor persevera na Igreja. Orando e oferecendo o sacrifício pelo próprio rebanho e por todo o Povo de Deus, conforme é seu ofício, conscientes do que fazem e imitando as realidades com que lidam (127), longe de serem impedidos pelos cuidados, perigos e tribulações do apostolado, devem antes por eles elevar-se a uma santidade mais alta, alimentando e afervorando a sua ação com a abundância da contemplação, para alegria de toda a Igreja de Deus. Todos os presbíteros, e especialmente aqueles que por título particular da sua ordenação são chamados sacerdotes diocesanos, lembrem-se de quanto ajudam para a sua santificação a união fiel e a cooperação generosa com o próprio Bispo.

Na missão de graça do sumo sacerdote, participam também de modo peculiar os ministros de ordem inferior, e sobretudo os diáconos; servindo nos mistérios de Cristo e da Igreja (128), devem conservar-se puros de todo o vício, agradar a Deus, atender a toda a espécie de boas obras diante dos homens (cfr. 1 Tm 3, 8-10. 12-13). Os clérigos que, chamados pelo Senhor e separados a fim de ter parte com Ele, se preparam sob a vigilância dos pastores para desempenhar os ofícios de ministros, procurem conformar o coração e o espírito com tão magnífica eleição, sendo assíduos na oração e fervorosos no amor, ocupando o pensamento com tudo o que é verdadeiro, justo e de boa reputação, fazendo tudo para glória é honra de Deus. Destes se aproximam aqueles leigos, que, escolhidos por Deus, são chamados pelos Bispos para se consagrarem totalmente às atividades apostólicas e com muito fruto trabalham no campo do Senhor (129).

Os esposos e pais cristãos devem, seguindo o seu caminho peculiar, amparar-se mutuamente na graça, com amor fiel, durante a vida inteira, e imbuir com a doutrina cristã e as virtudes evangélicas a prole que amorosamente receberam de Deus. Dão assim a todos exemplo de amor incansável e generoso, edificam a comunidade fraterna e são testemunhas e cooperadores da fecundidade da Igreja, nossa mãe, em sinal e participação daquele amor, com que Cristo amou a Sua esposa e por ela Se entregou (130). Exemplo semelhante é dado, mas de outro modo, pelas pessoas viúvas ou celibatárias, que muito podem concorrer para a santidade e ação da Igreja. Aqueles que se ocupam em trabalhos muitas vezes duros, devem, através das tarefas humanas, aperfeiçoar-se a si mesmos, ajudar os seus concidadãos, fazer progredir a sociedade e toda a criação; e, ainda, imitando com operosa caridade a Cristo, cujas mãos se exercitaram em trabalhos de operário e, em união com o Pai, continuamente atua para a salvação de todos; alegres na esperança, levando os fardos uns dos outros, subam com o próprio trabalho quotidiano a uma santidade mais alta, também ela apostólica.

Todos quantos se vêem oprimidos pela pobreza, pela fraqueza, pela doença ou tribulações várias, e os que sofrem perseguição por amor da justiça, saibam que estão unidos, de modo especial, a Cristo nos seus sofrimentos pela salvação do mundo; o Senhor, no Evangelho, proclamou-os bem-aventurados e «o Deus... de toda a graça, que nos chamou à Sua eterna glória em Cristo Jesus, depois de sofrerem um pouco, os há-de restabelecer, confirmar e consolidar» (1 Ped. 5,10).

Todos os fiéis se santificarão cada dia mais nas condições, tarefas e circunstâncias da própria vida e através de todas elas, se receberem tudo com fé da mão do Pai celeste e cooperarem com a divina vontade, manifestando a todos, na própria actividade temporal, a caridade com que Deus amou o mundo.

Caminho e meios à Santidade

42. «Deus é caridade e quem permanece na caridade, permanece em Deus e Deus nele» (1 Jo. 4,16). Ora, Deus difundiu a sua caridade nos nossos corações, por meio do Espírito Santo, que nos foi dado (cfr. Rom. 5,5). Sendo assim, o primeiro e mais necessário dom é a caridade, com que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor d'Ele. Para que esta caridade, como boa semente, cresça e frutifique na alma, cada fiel deve ouvir de bom grado a palavra de Deus, e cumprir, com a ajuda da graça, a Sua vontade, participar frequentemente nos sacramentos, sobretudo na Eucaristia, e nas funções sagrarias, dando-se continuamente à oração, à abnegação de si mesmo, ao serviço efectivo de seus irmãos e a toda a espécie de virtude; pois a caridade, vínculo da perfeição e plenitude da lei (cfr. Col. 3,14; Rom. 13,10), é que dirige todos os meios de santificação, os informa e leva a seu fim (131). E, pois, pela caridade para com Deus e o próximo que se caracteriza o verdadeiro discípulo de Cristo.

Como Jesus, Filho de Deus, manifestou o Seu amor dando a vida por nós, assim ninguém dá maior prova de amor do que aquele que oferece a própria vida por Ele e por seus irmãos (cfr. 1 Jo. 3,16; Jo. 15,13). Desde os primeiros tempos, e sempre assim continuará a suceder, alguns cristãos foram chamados a dar este máximo testemunho de amor diante de todos, e especialmente perante os perseguidores. Por esta razão, o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor. E embora seja concedido a poucos, todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-l'O no caminho da cruz em meio das perseguições que nunca faltarão à Igreja.

A santidade da Igreja é também especialmente favorecida pelos múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho aos Seus discípulos (132). Entre eles sobressai o de, com o coração mais facilmente indiviso (cfr. 1 Cor. 7, 32-34), se consagrarem só a Deus, na virgindade ou no celibato, dom da graça divina que o Pai concede a alguns (cfr. Mt. 19,11; 1 Cor. 7,7) (133). Esta continência perfeita, abraçada pelo reino dos céus, foi sempre tida em grande estima pela Igreja, como sinal e incentivo do amor e ainda como fonte privilegiada de fecundidade espiritual no mundo.

A Igreja recorda-se também da recomendação com que o Apóstolo, incitando os fiéis à caridade, os exorta a ter sentimentos semelhantes aos de Jesus Cristo, o qual «Se despojou a Si próprio, tomando a condição de escravo... feito obediente até à morte (Fl. 2, 7-8) e, «sendo rico, por nós Se fez pobre» (2 Cor. 8,9). Sendo necessário que sempre e em todo o tempo os discípulos imitem esta caridade e humildade de Cristo, e delas dêem testemunho, a mãe Igreja alegra-se de encontrar no seu seio muitos homens e mulheres que seguem mais de perto o abatimento do Salvador e mais claramente o manifestam, abraçando a pobreza na liberdade dos filhos de Deus e renunciando às próprias vontades: em matéria de perfeição, sujeitam-se, por amor de Deus, ao homem, para além do que é de obrigação, a fim de mais plenamente se conformarem a Cristo obediente (134).

Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado. Procurem, por isso, ordenar retamente os próprios afetos, para não serem impedidos de avançar na perfeição da caridade pelo uso das coisas terrenas e pelo apego às riquezas, em oposição ao espírito da pobreza evangélica, segundo o conselho do Apóstolo: os que usam no mundo, façam-no como se dele não usassem, pois é transitório o cenário deste mundo (1 Cor. 7,31 gr.) (135).
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A Constituição Dogmática Lumen Gentium, sobre a Igreja, tem a intenção de “oferecer a seus fiéis e a todo mundo um ensinamento mais preciso sobre sua natureza e sua missão universal” – (Concílio Vaticano II - Constituição Dogmática Lumen Gentiun).



sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

EXORTAÇÃO APOSTÓLICA -3

VERBUM DOMINI- Exortação Pós-Sínodal
Sobre a Palavra de Deus

I Parte - Verbum Dei
O Deus Que Fala   


Cristologia da Palavra

11. A partir deste olhar sobre a realidade como obra da Santíssima Trindade, através do Verbo divino, podemos compreender as palavras do autor da Carta aos Hebreus: «Tendo Deus falado outrora aos nossos pais, muitas vezes e de muitas maneiras, pelos Profetas, agora falou-nos nestes últimos tempos pelo Filho, a Quem constituiu herdeiro de tudo e por Quem igualmente criou o mundo» (Hb 1, 1-2). É estupendo observar como todo o Antigo Testamento se nos apresenta já como história na qual Deus comunica a sua Palavra: de facto, «tendo estabelecido aliança com Abraão (cf. Gn 15, 18), e com o povo de Israel por meio de Moisés (cf. Ex 24, 8), revelou-Se ao Povo escolhido como único Deus verdadeiro e vivo, em palavras e obras, de tal modo que Israel pudesse conhecer por experiência os planos de Deus sobre os homens, os compreendesse cada vez mais profunda e claramente, ouvindo o mesmo Deus falar por boca dos profetas, e os difundisse mais amplamente entre os homens (cf. Sl 21, 28-29; 95, 1-3; Is 2, 1-4; Jr 3, 17)».[32]

Esta condescendência de Deus realiza-se, de modo insuperável, na encarnação do Verbo. A Palavra eterna que se exprime na criação e comunica na história da salvação, tornou-se em Cristo um homem, «nascido de mulher» (Gl 4, 4). Aqui a Palavra não se exprime primariamente num discurso, em conceitos ou regras; mas vemo-nos colocados diante da própria pessoa de Jesus. A sua história, única e singular, é a palavra definitiva que Deus diz à humanidade. Daqui se compreende por que motivo, «no início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo».[33] A renovação deste encontro e desta consciência gera no coração dos fiéis a maravilha pela iniciativa divina, que o homem, com as suas próprias capacidades racionais e imaginação, jamais teria podido conceber. Trata-se de uma novidade inaudita e humanamente inconcebível: «O Verbo fez-Se carne e habitou entre nós» (Jo 1, 14a). Estas expressões não indicam uma figura retórica mas uma experiência vivida. Quem a refere é São João, testemunha ocular: «Nós vimos a sua glória, glória que Lhe vem do Pai, como Filho único cheio de graça e de verdade» (Jo 1, 14b). A fé apostólica testemunha que a Palavra eterna Se fez Um de nós. A Palavra divina exprime-se verdadeiramente em palavras humanas.

12. A tradição patrística e medieval, contemplando esta «Cristologia da Palavra», utilizou uma sugestiva expressão: O Verbo abreviou-Se.[34] «Na sua tradução grega do Antigo Testamento, os Padres da Igreja encontravam uma frase do profeta Isaías – que o próprio São Paulo cita – para mostrar como os caminhos novos de Deus estivessem já preanunciados no Antigo Testamento. Eis a frase: “O Senhor compendiou a sua Palavra, abreviou--a” (Is 10, 23; Rm 9, 28). (…) O próprio Filho é a Palavra, é o Logos: a Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. Fez--Se criança, para que a Palavra possa ser compreendida por nós».[35] Desde então a Palavra já não é apenas audível, não possui somente uma voz; agora a Palavra tem um rosto, que por isso mesmo podemos ver: Jesus de Nazaré.[36]

Repassando a narração dos Evangelhos, notamos como a própria humanidade de Jesus se manifesta em toda a sua singularidade precisamente quando referida à Palavra de Deus. De facto, na sua humanidade perfeita, Ele realiza a vontade do Pai a todo o momento; Jesus ouve a sua voz e obedece-Lhe com todo o seu ser; conhece o Pai e observa a sua palavra (cf. Jo 8, 55); comunica-nos as coisas do Pai (cf. Jo 12, 50); «dei-lhes as palavras que Tu Me deste» (Jo 17, 8). Assim Jesus mostra que é o Logos divino que Se dá a nós, mas é também o novo Adão, o homem verdadeiro, aquele que cumpre em cada momento não a própria vontade mas a do Pai. Ele «crescia em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (L c 2, 52). De maneira perfeita, escuta, realiza em Si mesmo e comunica-nos a Palavra divina (cf. L c 5, 1).

Por fim, a missão de Jesus cumpre-se no Mistério Pascal: aqui vemo-nos colocados diante da «Palavra da cruz» (cf. 1 Cor 1, 18). O Verbo emudece, torna-se silêncio de morte, porque Se «disse» até calar, nada retendo do que nos devia comunicar. Sugestivamente os Padres da Igreja, ao contemplarem este mistério, colocam nos lábios da Mãe de Deus esta expressão: «Está sem palavra a Palavra do Pai, que fez toda a criatura que fala; sem vida estão os olhos apagados d’Aquele a cuja palavra e aceno se move tudo o que tem vida».[37] Aqui verdadeiramente comunica-se-nos o amor «maior», aquele que dá a vida pelos próprios amigos (cf. Jo 15, 13).

Neste grande mistério, Jesus manifesta-Se como a Palavra da Nova e Eterna Aliança: a liberdade de Deus e a liberdade do homem encontraram--se definitivamente na sua carne crucificada, num pacto indissolúvel, válido para sempre. O próprio Jesus, na Última Ceia, ao instituir a Eucaristia falara de «Nova e Eterna Aliança», estabelecida no seu sangue derramado (cf. Mt 26, 28; Mc 14, 24; L c 22, 20), mostrando-Se como o verdadeiro Cordeiro imolado, no qual se realiza a definitiva libertação da escravidão.[38]

No mistério refulgente da ressurreição, este silêncio da Palavra manifesta-se com o seu significado autêntico e definitivo. Cristo, Palavra de Deus encarnada, crucificada e ressuscitada, é Senhor de todas as coisas; é o Vencedor, o Pantocrator, e assim todas as coisas ficam recapituladas n’Ele para sempre (cf. Ef 1, 10). Por isso, Cristo é «a luz do mundo» (Jo 8, 12), aquela luz que «resplandece nas trevas» (Jo 1, 5) mas as trevas não a acolheram (cf. Jo 1, 5). Aqui se compreende plenamente o significado do Salmo 119 quando a designa «farol para os meus passos, e luz para os meus caminhos» (v. 105); esta luz decisiva na nossa estrada é precisamente a Palavra que ressuscita. Desde o início, os cristãos tiveram consciência de que, em Cristo, a Palavra de Deus está presente como Pessoa. A Palavra de Deus é a luz verdadeira, de que o homem tem necessidade. Sim, na ressurreição, o Filho de Deus surgiu como Luz do mundo. Agora, vivendo com Ele e para Ele, podemos viver na luz.

13. Chegados por assim dizer ao coração da «Cristologia da Palavra», é importante sublinhar a unidade do desígnio divino no Verbo encarnado: é por isso que o Novo Testamento nos apresenta o Mistério Pascal de acordo com as Sagradas Escrituras, como a sua íntima realização. São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, afirma que Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados, «segundo as Escrituras» (15, 3) e que ressuscitou no terceiro dia «segundo as Escrituras» (15, 4). Deste modo o Apóstolo põe o acontecimento da morte e ressurreição do Senhor em relação com a história da Antiga Aliança de Deus com o seu povo. Mais ainda, faz-nos compreender que esta história recebe de tal acontecimento a sua lógica e o seu verdadeiro significado. No Mistério Pascal, realizam-se «as palavras da Escritura, isto é, esta morte realizada “segundo as Escrituras” é um acontecimento que contém em si mesmo um logos, uma lógica: a morte de Cristo testemunha que a Palavra de Deus Se fez totalmente “carne”, “história” humana».[39] Também a ressurreição de Jesus acontece «ao terceiro dia, segundo as Escrituras»: dado que a corrupção, segundo a interpretação judaica, começava depois do terceiro dia, a palavra da Escritura cumpre-se em Jesus, que ressuscita antes de começar a corrupção. Deste modo São Paulo, transmitindo fielmente o ensinamento dos Apóstolos (cf. 1 Cor 15, 3), sublinha que a vitória de Cristo sobre a morte se verifica através da força criadora da Palavra de Deus. Esta força divina proporciona esperança e alegria: tal é, em definitivo, o conteúdo libertador da revelação pascal. Na Páscoa, Deus revela-Se a Si mesmo juntamente com a força do Amor trinitário que aniquila as forças destruidoras do mal e da morte.

Assim, recordando estes elementos essenciais da nossa fé, podemos contemplar a unidade profunda entre criação e nova criação e de toda a história da salvação em Cristo. Recorrendo a uma imagem, podemos comparar o universo com uma partitura, um «livro» – diria Galileu Galilei – considerando-o como «a obra de um Autor que Se exprime através da “sinfonia” da criação. Dentro desta sinfonia, a determinado ponto aparece aquilo que, em linguagem musical, se chama um “solo”, um tema confiado a um só instrumento ou a uma só voz; e é tão importante que dele depende o significado da obra inteira. Este “solo” é Jesus (…). O Filho do Homem compendia em Si mesmo a terra e o céu, a criação e o Criador, a carne e o Espírito. É o centro do universo e da história, porque n’Ele se unem sem se confundir o Autor e a sua obra».[40]

Dimensão escatológica da Palavra de Deus

14. Por meio de tudo isto, a Igreja exprime a consciência de se encontrar, em Jesus Cristo, com a Palavra definitiva de Deus; Ele é «o Primeiro e o Último» (Ap 1, 17). Deu à criação e à história o seu sentido definitivo; por isso somos chamados a viver o tempo, a habitar na criação de Deus dentro deste ritmo escatológico da Palavra. «Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tm 6, 14; Tt 2, 13)».[41] De facto, como recordaram os Padres durante o Sínodo, a «especificidade do cristianismo manifesta-se no acontecimento que é Jesus Cristo, ápice da Revelação, cumprimento das promessas de Deus e mediador do encontro entre o homem e Deus. Ele, “que nos deu a conhecer Deus” (Jo 1, 18), é a Palavra única e definitiva confiada à humanidade».[42] São João da Cruz exprimiu esta verdade de modo admirável: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (…). Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade».[43]

Consequentemente, o Sínodo recomendou que «se ajudassem os fiéis a bem distinguir a Palavra de Deus das revelações privadas»,[44] cujo «papel não é (…) “completar” a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época histórica».[45] O valor das revelações privadas é essencialmente diverso do da única revelação pública: esta exige a nossa fé; de facto nela, por meio de palavras humanas e da mediação da comunidade viva da Igreja, fala-nos o próprio Deus. O critério da verdade de uma revelação privada é a sua orientação para o próprio Cristo. Quando aquela nos afasta d’Ele, certamente não vem do Espírito Santo, que nos guia no âmbito do Evangelho e não fora dele. A revelação privada é uma ajuda para a fé, e manifesta-se como credível precisamente porque orienta para a única revelação pública. Por isso, a aprovação eclesiástica de uma revelação privada indica essencialmente que a respectiva mensagem não contém nada que contradiga a fé e os bons costumes; é lícito torná-la pública, e os fiéis são autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão. Uma revelação privada pode introduzir novas acentuações, fazer surgir novas formas de piedade ou aprofundar antigas. Pode revestir-se de um certo carácter profético (cf. 1 Ts 5, 19-21) e ser uma válida ajuda para compreender e viver melhor o Evangelho na hora actual; por isso não se deve desprezá-la. É uma ajuda, que é oferecida, mas da qual não é obrigatório fazer uso. Em todo o caso, deve tratar-se de um alimento para a fé, a esperança e a caridade, que são o caminho permanente da salvação para todos.[46]